do desenho intemporal

Há um texto que Adolf Loos escreveu em 1913 e que eu considero particularmente interessante na forma como expõe, pedagogicamente, um método de intervenção dos arquitectos na paisagem natural, mais precisamente na montanha (referindo-se à região dos Alpes). Quase em jeito de manifesto, o autor intitula o seu texto em “Regras para Construir nas Montanhas” (Reglen für den, der in der Bergen baut), que passo a citar:

‘Do not build in a picturesque manner. Leave such effects to the walls, the mountains and the sun. A person who dresses to be picturesque is not picturesque but looks like an oaf. The farm labourer does not dress to be picturesque. But he is.
Build as well as you can. No better. Do not outstretch yourself. And no worse. Do not deliberately express yourself on a more base level than the one with which you were brought up and educated. This also applies when you go into the mountains. Speak with the locals in your own language. The Viennese lawyer that speaks to the locals in a country bumpkin’s accent in beneath contempt.
Pay attention to the forms in which the locals build. For they are the fruits of wisdom gleaned from the past. But look for the origin of the form. If technological advances made it possible to improve the form, then always use this improvement. The flail is being replaced by the threshing machine.
Flatlands demand a vertical structural articulation; mountains, a horizontal one. The work of man must not attempt to compete with the hand of God. The Hapsburg watch tower disturbs the skyline of the Viennese Woods, but the Husarentempel harmonises will within it.
Do not think about the roof, think about rain and snow. That’s how the locals think, and so they build the flattest roofs they can using the know-how they have. In the mountains the snow must not slide when it wants to but when the locals want it to. The roof should be safely accessible for shovelling away the snow. We also have to create the flattest roof possible using the know-how and experience at our disposal.
Be true! Nature only tolerates truth. It copes well with iron truss bridges, but rejects Gothic arched bridges with turrets and defensive slits. Have no fear of being chastised as outdated. Changes in the old building techniques are only allowed when they mean an improvement on them, otherwise remain with the old. For even if it is hundreds of years old the truth has more connection with our innermost feelings than mendacity, which paces alongside us.’

(in 2G, n.14, 2000/II, “Rules for Building in the Mountains”, Adolf Loos)

A partir de uma leitura atenta deste texto, é possível fazer uma série de anotações que nos permite elaborar uma análise sobre um posicionamento teórico defendido por Loos, como “Regras” sobre as quais os arquitectos se deveriam basear de forma a poderem projectar coerentemente uma arquitectura na paisagem. Não deixa de ser curioso em como um arquitecto que baseou praticamente toda a sua obra ao meio urbano, abrindo caminhos para a definição das práticas modernas de arquitectura, reflita desta forma sobre o carácter vernáculo e romântico que aproxima a arquitectura contemporânea (de cada época) às construções rurais (intemporais).
Desde logo Loos estabelece o seu posicionamento de que a arquitectura não deverá ser pitoresca. De que não nos devemos deixar levar pelo romantismo do ambiente, fazendo um exercício de colagem, de pastiche do antigo com o novo. Propõe então que devemos construir da melhor forma possível, sem excessos nem extravagâncias, de forma a que a paisagem seja o protagonista e não a mera obra de arquitectura. Loos refere ainda que antes de qualquer tipo de forma, devemos procurar uma linguagem arquitectónica que se adeque ao local onde se implanta, sem que para isso a obra perca o seu carácter contemporâneo. Defende, portanto,que devemos ser verdadeiros. Verdadeiros com aquilo que fazemos e para quem o fazemos, pois foi sempre assim que a gente local construiu. As formas advém das necessidades e a imagem da função. Tudo aquilo que nos parece tão característico e que nos tentamos a copiar é tão só a verdade da construção, a forma como se solucionam problemas comunicando através de uma linguagem directa e humilde.
Apesar deste texto ter perto de cem anos de existência, é perfeitamente possível extrapolá-lo para o nosso tempo e, mesmo que não defendamos na totalidade estas ideias, serve-nos de chamada de atenção ou mesmo de referência para a nossa prática actual. É este tipo de método de trabalho que também entendo que deveria ser praticado pelos arquitectos contemporâneos. Muito antes de se começar a desenhar deveremos saber sobre que papel estamos a riscar. Quais as suas características, a sua história e os seus valores. Em Portugal houve uma geração que não abdicou destes principios. Onde na construção da sua arquitectura os valores do lugar foram constrangimentos obrigatórios para o desenho e definição de uma linguagem arquitectónica. Algo que se tem vindo a perder com os anos, com interesses (ou falta de interesse) e que certamente merece uma nova aposta e uma nova consciencialização. No entanto, mesmo hoje será possível encontrar um número reduzido de arquitectos em Portugal, cujas preocupações não são tão dogmáticas como refere Loos, mas que no seu entendimento do lugar, desenham obras de grande riqueza e que certamente se tornarão numa referência, posteriormente.
Não defendendo um tipo único de abordagem, torna-se necessária a formulação de um pensamento teórico que nos permita, numa multiplicidade de relações, estabelecer um posicionamento claro perante um problema, de forma a gerar soluções que muito antes de uma forma ou função serão certamente Arquitectura.

por João Pereira de Sousa

a cor do verde

As questões energéticas e as políticas de sustentabilidade estão, hoje em dia, claramente em voga. As preocupações que há décadas têm vindo a ser discutidas pela comunidade científica e que nos tentam transmitir, mais ou menos, uma visão realista de um futuro próximo, começam finalmente a ser ouvidas e valorizadas. Mas, apesar desta aparente consciencialização por parte dos orgãos governamentais, há um claro nervosismo e mesmo um certo histerismo, no que toca a repensar os nossos hábitos de produção e de consumo energético. Com isto, assistimos hoje a uma autêntica corrida frenética pela medalha “verde”. Não que essa distinção tenha como objectivos primeiros uma melhor qualidade de vida, mas sim uma meta de sustentabilidade económica para os diversos membros da União Europeia (neste caso).
Já todos nós nos habituamos às diferentes formas de produção de energia e também à evolução constante neste campo. Desde as centrais eléctricas a carvão, a petróleo, a gás natural, às barragens hidroeléctricas, centrais nucleares até às mais recentes de energia solar, das marés e eólicas. Ora, uma vez que esta consciencialização pela conservação do planeta só há algumas décadas é que começou a ser encarada, desde a Revolução Industrial que a sociedade industrializada tem vindo a usar e a abusar dos métodos mais directos e fáceis de produção energética (e consequentemente os mais poluentes). Durante décadas foi este o pensamento (e ainda o é) do enquanto podemos, vamos usufruir ao máximo dos recursos. Não que o fim esteja próximo, mas pelo menos há que garantir que as gerações futuras possam (sobre)viver, assim como nos foi garantido a nós. Afinal todos fazemos parte de uma comunidade global, mesmo que ainda não tenhamos aprendido a agir como tal.
Assim, neste grito de desespero, perante esta constatação inevitável da realidade, tentam-se ao máximo mudar os paradigmas. Esta evolução contínua de quase 150 anos, onde praticamente ninguém nos ensinou a questionar a nossa existência ou mesmo a entender o funcionamento dos sistemas naturais, chega agora a uma ruptura. Finalmente entendemos (alguns de nós) que algo tem de ser feito e que há que mudar consideravelmente o nosso estilo de vida. Por mais que todos queiramos dar seguimento ao “American Way of Life”, esse conceito é já bastante velho e completamente desactualizado.
E quase que por milagre, começa-se a falar na utilização da energia dos ventos, dos raios ultravioleta e das ondas do mar. E, encarnados na figura do novo deus salvador, de um dia para o outro começamos a ver implantadas as primeiras turbinas eólicas, aqui e ali. A novidade é tal que até os passeios de domingo passam de uma tarde à beira-mar para uma peregrinação a estas novas estruturas. E o ciclo continua, cada vez mais turbinas eólicas são implantadas; há que lutar pelas estatísticas. E quando damos por isso e quando reflectimos um pouco, damos conta de que já rara é a paisagem onde não se aviste ao longe (pelo menos) uma série de turbinas eólicas que calmamente giram pela nossa salvação. Refiro isto porque para além das claras vantagens na utilização desta tecnologia há que ter em conta numerosos factores que constantemente são ignorados. Pois enquanto até agora as centrais eléctricas se centravam em locais específicos, temos cada vez mais uma enorme central eléctrica que se estende por todo o país, por toda a paisagem urbana ou rural, sem qualquer respeito ou consideração para com a natureza. Será este verde da cor que esperaríamos? Ou estaremos nós a colocar uma camada de verde por cima daquilo que não queremos que se veja? Estas preocupações justificam-se, pois esta busca pelo rótulo “verde”, onde tudo o que tenha a designação “reciclado”, “ecológico”, …, é imediatamente aceite como regra sem que para isso se façam os devidos estudos e se pesem as consequências. Porque milagres não existem. E desta forma se destrói a paisagem, alteram-se legislações e já poucos são os festos que permanecem intactos desta praga (ecológica). Estaremos nós na mesma a usar e a abusar dos métodos mais directos e fáceis de produção energética?
Afinal de contas o que é que queremos? Compensar os estragos que temos vindo a fazer na natureza ou continuar a garantir para nós um futuro mais ou menos sustentável escravizando (como sempre) a natureza? Há muito para pensar, para discutir, para estudar, antes de se começar a agir desta forma. Continuamos a ser os mesmos, a pensar da mesma forma, mas com cada vez mais tecnologia. O que mudou?

por João Pereira de Sousa

Memórias de um Inter-Rail (parte 2/3)

(Berlin) O segundo dia acordou sob um manto branco de neve, que se estendia pelos jardins e passeios avistados desde a janela onde tomávamos o pequeno-almoço. A neve que caia ia formando uma película branca no chão enquanto nos dirigíamos para a Unter den Linden. Desta grande avenida avistamos a porta de Brandeburgo e dirigimo-nos na sua direcção. Quando lá chegamos vimos a primeira manifestação de Carnaval com alguma música e ambiente festivo. Aqui se situava o branco projectado por Ghery e a academia de Artes. E logo ao lado esquerdo da Porta encontrava-se a magnífica obra de Eisenman, o memorial do Holocausto. Desde logo nos impressionou esta simplicidade formal, onde através de uma sucessão de blocos de betão com alturas distintas e ligeiramente inclinados, foi possível gerar um espaço fantástico de percurso e de reflexão onde a neve ia preenchendo os espaços das juntas de pavimento sobre a topografia incerta do terreno. De certa forma este contraste gerado entre a simplicidade formal do memorial e a envolvente caótica de edifícios adjacentes, parece fazer algum sentido… Seguimos assim, em direcção ao Reichstag, onde começamos a perceber uma fila interminável de pessoas para entrar no edifício e subir à cúpula projectada por Foster. Decidimos então que mais valia continuar a passear e fomos sempre junto ao rio até à zona da ilha dos museus, onde segundo havíamos percebido através de uns apontamentos, estaria o edifício de Siza Vieira. Após algum tempo a procurar, sem sucesso, perguntamos a duas senhoras que nos disseram que estava bem mais distante de onde estávamos, pois nem sequer aparecia no mapa que tínhamos. Decidimos então ir ver a ilha dos museus. Logo ao lado da ponte situava-se a Catedral, verdadeiramente imponente e toda retalhada depois de ter sido atacada durante a guerra. A entrada custava 3 euros, o que achamos um abuso e por isso seguimos para o próximo edifício. Tratava-se o Altes Museum projectado pelo Schinkel, com um aspecto bastante clássico e onde estava exposto o busto de Nefrodite. De seguida continuamos a ver outros museus e entramos no Deutsches Historisches Museum do I. M. Pei. Parecia interessante, no entanto um pouco extravagante a nível formal. Foi então que vimos que estava a começar a passar um enorme cortejo de Carnaval. Fomos até lá e estava toda a gente aglomerada de mãos no ar, debaixo de uma chuva de chocolates, rebuçados, pipocas e outras guloseimas, que saltavam disparadas dos carros decorados e animados do cortejo. E ficamos lá, a fazer como todos os outros, recolhendo os presentes que tombavam, até que depois fomos atrás do cortejo até à Alexander Platz. Chegamos até à zona da Mite Tower, a famosa torre de televisão que se vê de qualquer parte de Berlim. Decidimos entrar, mas custava 6,50 euros para subir, assim que saímos. Seguimos em direcção à alexander Platz que, segundo o que todos dizem, é o segundo centro de Berlim. No entanto, esta praça de dimensões colossais não correspondeu ao que imaginávamos. Era simplesmente um enorme espaço vazio, atravessado por uma avenida de largas dimensões, sem passeios para as pessoas percorrerem, mas antes com percursos subterrâneos de atravessamento da avenida. Da praça apenas se viam enormes blocos de apartamentos, sem qualquer relação de vizinhança. Seguimos então daqui em direcção à embaixada da Holanda projectado pelo OMA. Decidimos abordar o edifício pelo outro lado do rio, para ver que efeito teria nesse pedaço de cidade. E enquanto o observávamos, avistamos um manto negro de corvos que se dirigiam para o cume das árvores, ficando equilibrados no topo dos mais finos ramos. Após termos atravessado para a outra margem e de termos chegado junto do edifício, vimos que realmente apresentava uma forma interessante, contida e com uma grande precisão a nível de detalhe, como seria de esperar. De seguida decidimos ir até ao edifício de habitação do Siza e fomos apanhar o metro. E qual não é o nosso espanto, dentro do metro, que vimos acercar-se um indivíduo diante de nós segurando um cartão na mão a pedir para ver os bilhetes! A nossa sorte é que na noite anterior tínhamos decidido comprar o bilhete mais barato mas sem o validar, então fazendo-nos de turistas desorientados fizemos crer ao controlador à paisana que não sabíamos que se tinha de validar e ele lá nos deixou seguir dizendo apenas que deveríamos ter comprado um bilhete de mais zonas e que deveríamos validá-lo. Chegados ao “Bonjour Tristesse” do Siza, vimos que já todo ele tinha sofrido o peso do tempo com graffitis e enormes anúncios publicitários que adulteravam a imagem a que estávamos habituados. No entanto, conseguia-se ainda distinguir a criatividade formal desta obra. Seguimos então em direcção ao albergue onde conhecemos uma nova hóspede brasileira que estava de passagem pela Europa.

Potsdam Saímos de Berlim e apanhamos o comboio para Potsdam. A única referência que aí tínhamos era da Einstein Turm de Erich Mendelsohn, onde já na estação aparecia uma placa a indicar a sua direcção. Após termos caminhado um pedaço com as mochilas às costas decidimos ver se encontrávamos alguém para perguntar se estávamos no caminho correcto. Reparamos que estávamos um pouco enganados no caminho e que ainda faltava bastante para lá chegarmos. Então, com um pequeno mapa fotocopiado, seguimos a pé pelo meio de um bosque, até chegarmos a um centro de investigação onde conseguimos ver, finalmente, a torre que com as suas formas orgânicas surgia do chão em direcção ao céu. Posteriormente, decidimos aproveitar o resto da manhã para visitar a cidade, assim que, tivemos de fazer o caminho oposto para lá chegar. Entrando pela cidade, fomos até junto de um lago enorme que estava completamente gelado, onde andava uma senhora de patins de gelo. Não pudemos deixar de ir experimentar andar em cima de um lago gelado, tomando partido daquela realidade. Quando reparamos, tivemos de fazer uma espécie de corrida até à estação para seguirmos para Dessau.

Dessau A cidade da escola Artística mais conhecida do mundo. Nunca pensei que um dia iria passar por aqui, mas quando me dei conta, já estávamos a descer do comboio e a placa em frente dizia, com letras bem grandes, “Dessau Hbf”. Saímos da estação e fomos à procura de um mapa, pois seguramente estaria assinalado aquilo que procurávamos. Seguimos então pela Bauhausstrasse, a rua que ia dar directamente à escola. Quando a avistamos, estava à nossa frente a casa de ateliers, seguida do grande edifício projectado por Gropius para albergar a primeira escola de vanguarda de artes, design e arquitectura. Diante das famosas letras “Bauhaus” entramos no edifício e logo vimos que estava parcialmente em recuperação. Subimos pela escadaria principal e atravessamos o corredor que levava ao outro edifício, mas que estava fechado. Dirigimo-nos à biblioteca e depois à parte de baixo onde estava uma pequena exposição e uma livraria. Saímos e aproveitamos para comer sentados nas escadas da entrada enquanto admirávamos o edifício e relembrávamos toda a sua história e as suas transformações. De seguida fomos ver o conjunto de habitações projectadas por Gropius para os professores da Bauhaus. Todas elas projectadas num estilo funcionalista, em 1925, sendo que permanecem perfeitamente actuais. Dirigimo-nos então para a estação pois tínhamos visto um edifício interessante junto a esta. Era um edifício relacionado com o ministério do ambiente e todo ele tinha sido pensado de forma a usar energias renováveis. Depois como ainda tínhamos tempo fomos até ao centro da cidade, mas sinceramente não vimos nada de realmente interessante no resto da cidade.

Dresden Chegamos a Dresden depois de uma viagem relâmpago a Leipzig em 40 minutos. Chegamos à estação já de noite e deparamo-nos com as obras de reconstrução para a futura estação projectada por Norman Foster. Ficamos de nos encontrar com duas amigas que estavam a viver aí e nos iam albergar essa noite. Após algum tempo de espera fomos até à residência de estudantes mais perto onde pousamos as coisas. Os quartos eram bastante mínimos, com uma dimensão adequada para dormir e trabalhar: largura de 2 metros onde a cama estava num topo e uma janela no outro topo com uma mesa e um armário à direita. Fomos então comer para a cozinha comum que estava voltada para a estação e aproveitamos para descansar um pouco. Depois decidimos ir até ao centro a um bar. O único problema é que já com metade da viagem feita, os nossos corpos já começavam a acusar algum cansaço e então, no bar, apesar do bom ambiente, nós os três estávamos já bastante esgotados e um pouco dormidos. Chegamos finalmente a casa às 4.30h da manhã, completamente desfeitos e deitamo-nos com os nossos sacos-cama no chão. No dia seguinte acordamos às 12h ainda um pouco cansados e após algum tempo que levamos preparar-nos fomos tomar o pequeno-almoço. Por volta das 15h chegamos ao centro da cidade para passear enquanto passamos pela nova sinagoga de Dresden, com uma forma interessante. Seguimos até à zona histórica onde estão localizados os palácios barrocos hiper-decorados, com os seus grandes jardins junto ao rio. No entanto logo ao lado a cidade cresce, desmesurada e um pouco caótica com os grandes blocos de apartamentos e de escritórios. Seguimos então para a parte mais central da cidade onde estão os aglomerados mais antigos, com as suas ruas bem mais interessantes. E com esta caminhada toda, já um pouco cansados decidimos ir comer algo bastante “típico” da Alemanha contemporânea, um döner kebap. De volta à residência estivemos a conversar com outras pessoas que lá viviam e começamos a arrumar as nossas coisas para então apanhar o comboio nocturno que nos levaria a Munique. E chegados à estação já lá estava à espera o City Night Line, dos melhores comboios nocturnos da Alemanha, assim que nos instalamos e seguimos viagem durante toda a noite para chegarmos às 6.23h a Munique.

München/Füssen Chegamos a Munique às 6.23h da manhã e o que poderíamos fazer a essa hora numa cidade desconhecida? Olhamos para os horários dos comboios e decidimos improvisar um pouco e apanhar o comboio que ia para Füssen, nos alpes germânicos, às 7.30h. Foi uma viagem bastante agradável onde vimos o amanhecer debaixo de um grande nevão que branqueava toda a paisagem por onde passávamos. Chegados a Füssen reparamos que isto mais parecia uma estação de ski, com tudo coberto de neve, altas montanhas brancas e algumas pessoas preparadas para fazer ski de fundo. A nossa ideia era ir ver os castelos construídos para o rei Ludwig, durante o século XIX, nas encostas alpinas (um pouco como o Palácio da Pena em Sintra). Apanhamos um autocarro com mais dois mexicanos que conhecemos enquanto esperávamos e com um enorme grupo de japoneses. Vimos logo que aquilo era demasiado turístico em relação ao que tínhamos pensado, mas a paisagem da montanha repleta de neve fazia-nos esquecer isso e apreciar o lugar. Decidimos não pagar os 8 euros para entrar nos castelos e em vez disso fomos subindo por entre a neve até à entrada, fugindo discretamente dos grupos de turistas. Chegados à entrada de um dos castelos estivemos a apreciar a paisagem e descobrimos no meio das montanhas uma ponte que ligava dois desfiladeiros, uma imagem típica de postal. Como tínhamos um comboio para voltar para Munique às 11.16h, fomos descendo para apanhar o autocarro que já havia passado há uns minutos. Como teríamos de esperar quase uma hora ao frio e iríamos perder o comboio, decidimos fazer o percurso a pé até à estação e apreciar deste modo a paisagem. Fomos caminhando e numa parte árida de neve vimos grupos de pessoas a fazer calmamente ski de fundo. Ainda tivemos tempo para dar umas voltas pela cidadela antes de voltarmos para a estação. E com a neve a cair voltamos de comboio para Munique. Chegados a Munique, decidimos usar a técnica de sair da estação e seguir em frente até chegarmos ao centro por uma rua comercial pedonal. A cidade estava cheia de neve e íamos seguindo a apreciar a sua vida. Visitamos duas Igrejas e fomos procurar um sítio para comer as nossas sandes. Decidimos ir em direcção ao rio e conhecer essa zona. Tudo estava branco e as crianças andavam de trenó nos jardins enquanto outros andavam mesmo de bicicleta sobre a neve. Já noutro jardim maior assistimos ao cair da noite com uma paisagem bastante agradável e seguimos até um café para tomar algo. Escolhemos desta vez um dos cafés mais requintados da cidade para bebermos cada um uma cerveja de meio litro da Baviera. Ficamos por lá cerca de duas horas e seguimos para a estação pois íamos apanhar um comboio nocturno para Viena às 23.44

Wien Após termos feito mais uma viagem nocturna, agora com um companheiro brasileiro, em que finalmente consegui dormir um pouco melhor, chegamos às 6h da manhã a Viena, a cidade da cultura e das artes. Como ainda chegamos antes do raiar do sol, ficamos sentados na estação a tomar o nosso pequeno-almoço e a esperar que fossem horas decentes para irmos para a cidade. Por fim lá saímos e dirigimo-nos ao albergue. Era uma casa antiga, transformada em albergue onde em cada quarto havia uma imensidão de camas, uma sala de estar, uma cozinha e uma casa de banho. Quem estava à frente daquilo era uma senhora de 30 e poucos anos que aparentava um ar um pouco desconfiado. Após termos falado sobre as condições e de termos pago, pousamos as coisas e fomos visitar a cidade. Percorremos algumas ruas até chegar ao edifício Secession, um exemplo conhecido da arte nova naquela cidade. Caminhando por ali fomos encontrando algumas das estações de metro originais de Otto Wagner e olhando para o lado, um grande edifício de habitação chamado Wohnhaus, do mesmo arquitecto, com aspectos decorativos bastante interessantes. Tínhamos desenhado um pequeno itinerário pelas obras de Loos e então seguimos pela Opernstrasse, passando pelo edifício da Ópera, até chegarmos a uma zona de grandes edifícios imperiais e onde se encontrava o edifício do banco de Adolf Loos, de 1910, bastante interessante a nível formal. De lá, fomos em direcção à Catedral, passando pelas ruas pedonais envolventes repletas de anúncios de lojas. Entramos na Catedral de estilo Gótico e quando saímos fomos abordados por um homem que nos falava em espanhol e com sotaque italiano, querendo-nos vender bilhetes para um concerto de música clássica (claro está!). Toda esta zona estava cheia de pessoas a fazer o mesmo género de trabalho. Então, após termos insistido que não queríamos os bilhetes e dele ter insistido que nos fazia cada vez mais barato, acabamos por ficar com dois bilhetes grátis e um pelo preço de 38€ (nada mau!). Como já tínhamos então um plano para a noite, continuamos a andar para encontrar o American Bar do Loos. Era apenas um pequeno tipicamente loosiano, bastante pesado a nível de texturas. De seguida fomos comer as nossas sandes e decidimos dar umas voltas pelo centro e ir até ao canal do Danúbio. Por esta altura já estávamos completamente exaustos e fomos apenas ao supermercado comprar alguma comida para o jantar e seguimos para o albergue para descansar um pouco antes de ir ao concerto. Chegados lá, conhecemos algumas pessoas que passavam por lá, entre os quais um alemão que estava a viver lá temporariamente enquanto trabalhava como bibliotecário. Estivemos um tempo a descansar e a dormitar e após tomar um banho e comer mais umas sandes, partimos para o concerto de música clássica de compositores vienenses. Fomos a pé através do “ring” e estávamos lá às 19h, num edifício neo-gótico do início do século XIX. As pessoas começaram a chegar e fomo-nos encaminhando para a sala de concerto, bastante mais pequena do que parecia na foto. De repente surge um grupo de quatro espanhóis que mesmo antes de se sentarem ao meu lado já estavam a embirrar com tudo o que viam. O concerto começou e por entre composições de Mozart, Strauss e outros, aquelas pessoas a meu lado não paravam quietas nem deixavam de falar uns com os outros. Mas mesmo assim, no final valeu a pena ter ido ao concerto e voltamos de novo para o albergue desta vez para dormir…

álbum de fotografias

por João Pereira de Sousa

Memórias de um Inter-Rail (parte 1/3)

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A partir do caderno de viagem que fui escrevendo aquando de um inter-rail que realizei em 2006 no final do mês de Fevereiro, achei interessante publicar aqui as reportagens que ia fazendo a cada dia que passava, demonstrando os sítios por onde passei e as descobertas que ia fazendo ao longo da viagem. As memórias ficaram assim registadas em palavras, desenhos e fotografias e a cada vez que as revejo, recordo-me perfeitamente de todos os acontecimentos passados.

Decidi então partilhar para que todos nós sintamos também esta vontade enorme de viajar, de conhecer, de explorar. Só assim é que crescemos como pessoas e como Arquitectos.

Saída de Bruxelas

Aachen A primeira paragem foi de imediato na primeira cidade alemã à saída da Bélgica. Aachen é uma cidade de origem romana, bastante pequena mas com grandes edifícios históricos. Com apenas 55 minutos para a visitar enquanto esperávamos um comboio, fizemos a nossa visita-relâmpago ao centro e à Catedral onde se encontram as relíquias de Carlos Magno.

Hannover Tínhamos apenas 3 horas para visitar a cidade e esteve sempre a chover. Decidimos então dar uma volta pela cidade ainda de mochila às costas e descobrimos uma quantidade enorme de espaços públicos de qualidade (que tanta falta fazem em Portugal). Desde logo nos apercebemos das memórias da história recente alemã. Uma igreja do século XIV onde só restavam apenas as paredes exteriores depois de 1945. Seguimos até ao Rathaus onde estavam expostas quatro maquetas da cidade: uma do século XIV onde se viam dois núcleos, um muralhado e outro em expansão; outra de 1939, antes da guerra, com uma cidade já bem consolidada; outra de 1945 agora completamente devastada pela guerra; e a última com a cidade actual, com as suas grandes avenidas. Seguimos até à Catedral, um edifício todo revestido a tijolo com um órgão enormíssimo, quase arquitectural. E, debaixo de chuva fomos até às ruas comerciais onde comemos pela primeira vez uma Bratwurst! Voltamos finalmente à estação após muita chuva para beber um chocolate quente enquanto (calmamente) perdíamos o comboio das 19.40 por termos visto mal o horário. Após algum nervosismo encontramos outro comboio de alta velocidade que iria fazer a ligação a Hamm para que pudéssemos continuar viagem.

København Depois de uma noite passada no Nachtzug, sem dormir muito tempo seguido, ora porque havia barulho, ora porque faziam uma vistoria ao comboio e nos pediam os BI e os bilhetes, chegamos a Copenhaga pelas 10 horas, com um ar gelado e alguma neve na paisagem. Já tínhamos ideia de alugar uma bicicleta, mas não fazia ideia da quantidade enorme de bicicletas que se viam aqui (incrível). Todas as ruas estão equipadas de faixas em cada sentido para bicicletas e toda a gente as utiliza para andar de bicicleta (parece que entramos em algum mundo extraterrestre!). Fomos dar entrada no albergue e alugar as três bicicletas. Depois de andarmos um pouco pela cidade, meio perdidos, decidimos ir procurar alguns edifícios recentes com interesse, mas pelo caminho encontramos a igreja de Christiania e seguidamente a cidade anarquista de Christiania. Aquilo que em tempos foi um complexo industrial, tornou-se num abrigo de gente que apelava à liberdade sexual e de espírito, mas que foi evoluindo para se tornar num espaço onde pessoas à margem da sociedade vivem em comunidade, praticamente sem contacto com o exterior, como se o tempo por eles não tivesse passado. Por entre casas pintadas a graffiti e bicicletas desmontadas, víamos os seus habitantes, que se moviam com gestos lentos e bucólicos. Subitamente também se encontravam turistas (como nós) e curiosamente uns portugueses que estavam a estudar em Lund na Suécia. Depois de termos visto a Royal Library, atravessamos o canal e deparamo-nos com a obra dos PLOT para os banhos públicos da cidade, inseridos num parque fluvial bastante cuidado. Seguindo por esse parque encontramos um edifício de habitação dos MVRDV que foi construído a partir de uns silos antigos. A próxima paragem seria Ørestad, a zona de expansão da cidade em direcção à Suécia. Reparamos que havia um parque enorme que separava a zona onde estávamos da estrada que seguia para Ørestad. E nem a neve nos fez hesitar! Seguimos então nas bicicletas por trilhos completamente cobertos de neve até que chegamos à estrada que conecta a cidade de Copenhaga à cidade de Malmö na Suécia. Por entre casas e jardins nórdicos se começa a adivinhar dois edifícios enormes, praticamente todos envidraçados e onde se podia observar perfeitamente tudo o que se passava no interior das casas. Após termos dado umas voltas junto aos edifícios, de os termos fotografado, subitamente alguém se dirige a nós em espanhol. Era uma espanhola que ali morava e que prontamente se ofereceu para nos mostrar o edifício V em detalhe. Subimos então até ao 9º andar e entramos na habitação V68, mas sem antes deixarmos os sapatos no exterior, seguindo o costume dinamarquês. O apartamento era completamente atravessado pela luz que entrava pelas duas fachadas em vidro e, das varandas triangulares se tinha uma vista sobre a península e também sobre todos os interiores dos apartamentos do edifício. Acabamos então o dia pelo centro da cidade, visitando-a à noite. No segundo dia, como ainda tínhamos tempo para utilizar as bicicletas, decidimos fazer um percurso assumidamente turístico e ir até à zona do castelo onde está a famosa estátua da sereia que, ao contrário do que as imagens mostram, do outro lado da água encontrava-se um horizonte cheio de chaminés de fábricas que nos surpreendeu. Após termos devolvido as bicicletas, voltamos a mover-nos a pé e fomos conhecer mais algumas partes da cidade. Descobrimos então o National Barnk do Arne Jacobsen, com o seu hall de entrada absolutamente monumental. Tínhamos pensado ainda apanhar o metro para ir até ao clube aquático dos PLOT, mas perante os preços dos bilhetes,decidimos fazer um plano alternativo e aproveitar o nosso bilhete de comboio. Apanhamos então um comboio que nos levou ao extremo da ilha onde se encontra Copenhaga. Chegamos a Helsingør, onde se localiza o castelo que serve de cenário a Hamlet e com uma vista esplêndida para a Suécia, do outro lado do mar báltico. Voltamos a apanhar o comboio para irmos até Humlebæk, uma vila junto ao mar onde se encontra um museu com grandes obras de arte contemporânea, mas cujo preço do bilhete era de 10€. Após esta pequena viagem, voltamos à gare central de Copenhaga onde decidimos mudar alguns planos para o dia seguinte e apanhar um comboio nocturno para Colónia, para depois fazermos a ligação para Hamburgo.

Århus Chegamos a esta cidade e tínhamos ideia de ir ver o edifício da câmara municipal, obra de Arne Jacobsen. Do exterior este edifício era absolutamente contrastante com a envolvente. Bastante pesado e encerrado em si próprio. No entanto, o interior estava inundado de luz bastante trabalhada, fazendo com que tudo parecesse mais leve. Continuamos a caminhar pela cidade e descobrimos que esta era bastante distinta da cidade de Copenhaga. Bastante mais pequena, de ruas sinuosas e com alguma desorganização na implantação dos edifícios.

Aalborg Após mais umas horas a viajar num comboio inter-cidades bastante confortável, chegamos a Aalborg. Não tínhamos qualquer referência sobre esta cidade, apenas queríamos ir o mais possível em direcção ao norte e expandir os nossos limites latitudinais. No entanto esta cidade, atravessada por um Fjord, tornou-se bastante mais interessante que a anterior. Apresentava um núcleo histórico bem conservado, repleto de pequeno comércio e de alguns edifícios mais recentes que se conjugavam harmoniosamente com os mais antigos. Seguimos daqui a viagem de volta para a Alemanha, onde foi necessário apanhar um comboio nocturno até Colónia e de seguida apanhar outro que em quatro horas nos levaria a Hamburgo.

Hamburg Passamos mais uma noite no comboio nocturno, após termos estado 30 minutos à espera em Kolding por causa de um atraso. Quando finalmente entramos no comboio e vimos que tínhamos um compartimento só para nós gritamos de contentes mesmo depois da controladora dinamarquesa nos ter dito que umas paragens mais à frente viriam mais duas pessoas. No entanto, toda essa excitação teve um fim quando chegaram duas mulheres alemãs decididas a passar toda a noite acordadas até Colónia. Enquanto nós tentávamos forçosamente dormir, as duas alemãs insistiam em falar e fumar, … Chegamos finalmente a Colónia e saímos fugazmente do comboio para entrar no que nos levaria a Hamburgo em 4 horas, onde finalmente pudemos dormir um pouco. Chegados à cidade, seguimos directamente para o centro. Começamos a caminhar por ruas enormes, com passeios larguíssimos, com bastante gente nas ruas repletas de lojas luxuosas. No horizonte encontrávamos sempre uma grande quantidade de torres, sendo que nos dirigimos em direcção a uma torre gótica. Quando lá chegamos, aquilo que provavelmente seria uma grande igreja, era apenas uma estrutura em ruínas na qual restava apenas a sua torre sineira e algumas paredes exteriores. Um marco impressionante numa cidade devastada pela guerra. Seguimos então para ver o edifício ChileHaus do arquitecto Fritz Höger. Um grande edifício revestido a tijolo com uma imagem imponente e com um desenho interessante nos pormenores das fachadas. Decidimos então seguir junto ao rio, passando pelas imensas pontes e barcos que se encontravam no maior porto da Alemanha. Fomos então em direcção à zona de Sankt Pauli, passando por alguns edifícios interessantes e visitando algumas igrejas. Pela noite ainda passamos por um Jazz Club com música ao vivo antes de irmos para o albergue onde dormimos num dormitório com 25 camas.

Berlin Depois de termos tido alguns problemas em relação à direcção do comboio para Berlim, chegamos finalmente à cidade, depois das 13h. Passamos pelo albergue e decidimos ir a pé até à zona do Zoologischer Garten, porque aí tínhamos o itinerário para fazer. Mesmo antes de chegar ao início do itinerário, passamos por uma zona da cidade altamente frequentada, com centenas de pessoas a caminhar nos passeios. Passamos por uma igreja destruída onde apenas restava uma torre, rodeada de altos edifícios de mau gosto, provavelmente dos anos 70. Seguimos até ao bairro Hansa, o bairro modernista de cidade-jardim. Logo à entrada situava-se o edifício curvo do Gropius e mais à frente o edifício do Alvar Aalto, destacando-se dos restantes pela sua forma. Mais à frente, situava-se o grande bloco de habitação de Oscar Niemeyer, verdadeiramente funcionalista. Fomos na direcção da grandiosa coluna da Vitória na Grosser Stern e depois atravessamos o Tiegarten até à Budapesterstrasse onde se encontravam os edifícios das embaixadas dos países nórdicos e do México, bastante interessantes formalmente. Continuamos a descer até ao Bauhaus Arkiv, o museu da história da Bauhaus. Seguimos então junto ao Spree até chegarmos ao magnífico edifício da National Galerie de Mies Van der Rohe, com a sua enormíssima cobertura plana apoiada nos enormes pilares negros que abriam o um enorme espaço livre no interior, parcialmente ocupado por uma sala de concertos. Logo ao lado estava a famosa Philharmonik de Hans Scharoun e também a Biblioteca de Berlim, mas estavam as duas fechadas, para nosso desgosto. Continuamos em direcção à Potsdamer Platz pelo Sony Hall até chegar finalmente à praça onde estava a grande edifício de Hans Kollhof. E pela primeira vez vimos um troço do muro de Berlim, debaixo de um vento gelado. Fomos em direcção ao Checkpoint Charlie, que se encontra como memória real desde a queda do muro. Daqui seguimos em direcção ao museu judaico do Daniel Libeskind. No entanto, enquanto aqui andávamos a conhecer o edifício e o jardim, fomos “gentilmente” corridos por um segurança que praticamente nos empurrou porta fora porque já estava fechado. Dirigimo-nos então até Friedrichstrasse para norte, passando pelos quarteirões das lojas mais luxuosas da cidade até à Unter den Linden onde jantamos e, finalmente nos dirigimos para o albergue.

álbum de fotografias

por João Pereira de Sousa

o porquê e o para quê da forma*

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Inundados de imagens, é assim que nos encontramos. Nada é passível de ser entendido ou apreciado sem uma imagem, sem um registo gráfico. Veneram-se formas, procuram-se significados, razões e maneiras de traduzir uma forma em palavras. A Arquitectura é na generalidade entendida hoje como um jogo de formas (muito mais que o jogo de volumes proposto pelo movimento moderno). Formas essas que a todo o custo procuram ser justificadas, que procuram ser ideias quando na realidade as formas deveriam traduzir ideias (e não o inverso). Procura-se uma arquitectura forte, intensa, formal, quase pictórica, esquecendo para isso a ideia, o fio condutor, a razão, o propósito e a função da arquitectura. Enquadramo-nos cada vez mais numa era barroca em que tudo é visual, excessivo e desproporcionado. Procura-se uma arquitectura virtuosa.

Venera-se uma arquitectura de formas complexas, de imagens compostas, de um excesso de desenho que remete para o supérfluo, para o ornamental, escondendo inteligentemente o seu propósito, a sua razão, alegando que a sua justificação é expressa pela forma, muito mais que pela ideia. Vendem-se formas e a imagem prevalece, ninguém pensa, ninguém lê, ninguém estuda e a arquitectura esvazia-se, aprende-se nas formas, da maneira mais acessível e útil para qualquer um de nós.

Mas raros são os que reflectem, os que tomam o tempo para o estudo e análise de um problema. Os que muito antes de uma forma buscam a satisfação das necessidades do homem, a contextualização, a racionalidade e a economia da criação arquitectónica. Os que não esgotam a arquitectura em si mesma mas que a desenvolvem desde os seus pressupostos racionais até à poética inerente a uma verdadeira obra de arquitectura, tornando cada vez mais simples algo tão complexo.

A Arquitectura sempre acompanhou os avanços da Tecnologia. A evolução da história da arquitectura corresponde à evolução tecnológica mundial. Uma não vive sem a outra, no entanto uma é mais importante que a outra. E porque nos rendemos nós à tecnologia? Porque deixamos que seja a tecnologia a protagonista em vez da Arquitectura? Procura-se uma arquitectura sempre original, vanguardista, suportada nos mais avançados processos tecnológicos e no entanto esquecemo-nos da distância que separa a Arquitectura da Tecnologia. Que a Tecnologia não é um fim mas um meio. Que a Arquitectura está e sempre estará na vontade, no processo e no resultado. Que quando a Tecnologia surge como protagonista resulta apenas a forma, um esqueleto que por mais belo que seja não consegue respirar por si próprio.

Vivemos uma época de constantes revoluções tecnológicas, onde a cada dia surgem novos processos, novos materiais e as possibilidades são infinitas. Perante isto sentimo-nos cada vez mais livres, mais originais. Sentimos que cada vez menos nos impõem limites, que podemos expressar livremente a nossa arte, afirmando-nos como uma nova geração. Mas a Arquitectura vive das suas limitações, das suas relações, do seu propósito. Os verdadeiros materiais que compõem a Arquitectura continuam a ser os mesmos desde sempre: a Gravidade que define o espaço e a Luz que o temporaliza. De que nos serve a tecnologia se não conseguimos trabalhar com os materiais mais básicos da arquitectura? Se muito antes que a “casca” interessa pensar e desenvolver a “polpa”, porque insistimos nós na ornamentação, no supérfluo?

A Arquitectura é uma das artes do desenho. Mas é única através das suas condicionantes, da sua funcionalidade, do seu propósito. Não é só forma como também não é só função. Será certamente difícil para todos nós encontrar-lhe uma definição (talvez por isso muitos de nós não saibamos ao certo aquilo que fazemos). No entanto a Arquitectura é visível, é palpável, tem odor e existe no tempo. Ela existe e não é apenas através da forma. É tudo aquilo que não se vê mas que se sente.

Será isso provavelmente aquilo que nos custa a entender.

por João Pereira de Sousa

* expressão transcrita do livro “A Ideia Construída” de Alberto Campo Baeza